sábado, 30 de setembro de 2023

O Pensamento Computacional na Educação

Este texto pretende apresentar de forma simplificada o que é o Pensamento computacional. Sem tratar dos pormenores que consistem na riqueza da abordagem, a intenção é apenas notar que a BNCC contempla aspectos da aprendizagem que estão perfeitamente alinhadas com esta abordagem.



O Pensamento computacional na BNCC

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estabelece diretrizes educacionais importantes para a formação dos estudantes no Brasil. Dentre as competências gerais, destaca-se a habilidade de compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de forma crítica e ética, resolvendo problemas e exercendo protagonismo na vida pessoal e coletiva (Brasil, 2018, p. 9). Essa perspectiva ressalta a importância do Pensamento Computacional, uma competência-chave que vai além da matemática e está intrinsecamente ligada à ciência da computação (Paiva, 2022).

Crianças e computadores

O Pensamento Computacional, inicialmente proposto por Seymour Papert, relaciona-se à capacidade de sistematizar e ordenar conhecimento, representando-o em formato computável (Pasqual Júnior, 2020). Jeannet Wing ampliou essa ideia, argumentando que essa competência é crucial não apenas para os profissionais de computação, mas para todos, pois envolve a resolução de problemas, o design de sistemas e a compreensão do comportamento humano (Wing, 2006, p. 1).


Fundamentos do Pensamento computacional

Para compreender melhor o Pensamento Computacional, Wing (2006) o estrutura em quatro elementos fundamentais: decomposição, identificação de padrões, abstração e algoritmo. Esses elementos fornecem uma visão abrangente de como essa habilidade pode ser aplicada para resolver problemas cotidianos, indo além da mera programação de computadores.


Pensamento computacional sem computador?

No contexto educacional, a Computação Desplugada emerge como uma solução para superar as barreiras tecnológicas. Como destaca Paiva (2022, p. 8), essa abordagem torna o ensino de Pensamento Computacional acessível a todos, requerendo apenas criatividade e boa vontade. É possível ensinar essa competência por meio de atividades com lápis e papel, jogos e recursos de programação em blocos, sem depender estritamente de dispositivos tecnológicos (Pasqual Júnior, 2020, p. 56). Apesar do avanço nessa área, é evidente a necessidade de mais pesquisas empíricas, especialmente no contexto escolar primário, para explorar o potencial da computação desplugada no desenvolvimento do Pensamento Computacional (Brackmann, 2017).


A inclusão do Pensamento Computacional na BNCC representa um passo fundamental para a formação de indivíduos aptos a enfrentar os desafios do mundo moderno, alinhando-se ao desenvolvimento tecnológico e à busca por soluções criativas e éticas para os problemas contemporâneos. Nesse sentido, educadores e pesquisadores têm um papel vital em promover estratégias que permitam a ampla assimilação dessa competência, alinhada a um ensino inclusivo e acessível.


Referências Bibliográficas:

Brackmann, C. R. (2017). Pensamento Computacional na Educação Básica: Uma Revisão Sistemática. Disponível em: [https://doi.org/10.5753/cbie.wcbie.2017.982.].

Brasil. (2018). Base Nacional Comum Curricular. Disponível em: [http://basenacionalcomum.mec.gov.br/abase]/.

Paiva, S. do R. de. (2022). Guia de Implementação de Pensamento Computacional para o ensino básico. Editora ciência moderna.

Pasqual Júnior, V. (2020). Pensamento Computacional na Educação: Abordagens e Aplicações. Disponível em: [Inserir aqui o link da referência].

Wing, J. (2006). Computational Thinking. Communications of the ACM, 49(3), 33-35. Disponível em: [https://doi.org/10.1145/1118178.1118215.].






sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Filosofia para crianças


Filosofia para Crianças: Fomentando o Pensamento Crítico desde a Infância

Falar de filosofia para crianças é introduzir um mundo fascinante de desenvolvimento intelectual, e é impossível começar essa conversa sem mencionar Matthew Lipman, o criador desse inovador programa educacional. Matthew Lipman, um filósofo americano profundamente influenciado pelo pensamento de John Dewey, iniciou esse projeto enquanto era professor universitário e do ensino secundário. Ele percebeu a necessidade de introduzir o pensamento sistemático e de alto nível desde cedo, o que o levou a usar histórias e novelas como ferramenta pedagógica.

Nos anos 1970, com a colaboração da professora Ann Margareth Sharp, surgiram as primeiras novelas, como "Ari dos Teles", "Lisa", "Suki e Mark". Este período também marcou a fundação do "Institute for the Advancement of Philosophy for Children - IAPC" em 1974, apoiado pelo Montclair State College.


Para incluir crianças a partir de 6 anos nos primeiros anos do Ensino Fundamental, Lipman desenvolveu novelas específicas para essa faixa etária, como "Elfie", "Issao", "Guga", "Pimpa" e "Nous", faixa etária à qual vamos nos ater, pois o programa é muito mais amplo.

Novelas Filosóficas e Manuais

Elfie
Ano de Publicação: 1988
Idade: 5-6 anos
Série Escolar: Pré-escola
Temas: Comunidade de investigação filosófica
Manual: Colocando juntos nossos pensamentos


Issao e Guga
Ano de Publicação: 1982/86
Idade: 7-8 anos
Série Escolar: 1ª e 2ª séries
Temas: Filosofia da natureza
Manual: Maravilhando-se com o mundo


Pimpa
Ano de Publicação: 1981
Idade: 9-10 anos
Série Escolar: 3ª e 4ª séries
Temas: Filosofia da linguagem/ontologia
Manual: Em busca do sentido


Nous
Ano de Publicação: 1996
Idade: 11-12 anos
Série Escolar: 3ª e 4ª séries
Temas: Formação ética


Manual: Decidindo o que fazer
Essas novelas foram desenvolvidas considerando as habilidades cognitivas necessárias para cada faixa etária, promovendo o pensamento crítico, a investigação, a formação de conceitos e a tradução das ideias.


Desenvolvendo Habilidades Cognitivas
As habilidades cognitivas fundamentais propostas por Lipman no programa Filosofia para Crianças incluem:


Raciocínio
Tornar preciso o que se mostra vago e ambíguo
Traçar inferências e raciocinar por analogia
Universalizar e distinguir verdade de validade


Questionamento e Investigação
Dar e pedir boas razões
Formar e confrontar hipóteses
Levantar questões e problematizar


Formação de Conceitos
Estabelecer relações e traçar distinções
Definir conceitos filosóficos como Experiências, Poder, Bem, Razão, entre outros


Tradução
Ser sensível à dimensão afetiva
Ser empático e dialogar
Propiciar confiança e não bloquear a investigação

Essas habilidades não apenas enriquecem a vida cotidiana, mas também estão alinhadas com as competências gerais do Ensino Fundamental na BNCC, promovendo o julgamento crítico, a crítica e o autoconhecimento.

A Comunidade de Investigação
A Comunidade de Investigação é a espinha dorsal do programa, promovendo um ambiente de cooperação em sala de aula. Caracteriza-se por deliberações não adversariais, cognições compartilhadas, leitura profunda e o prazer em textos dialógicos. A essência é substituir a competição pela cooperação, estimulando a cognição compartilhada.


O Pensamento de Ordem Superior
Matthew Lipman define três características para o pensamento de ordem superior: riqueza conceitual, organização coerente e persistência exploratória. Este tipo de pensamento inclui, mas não é idêntico ao pensamento crítico, e é essencial para o desenvolvimento intelectual e o julgamento assertivo e criativo.

O programa de Filosofia para Crianças não só enriquece as habilidades intelectuais das crianças, mas também proporciona uma abordagem educacional que prepara as futuras gerações para pensarem de forma crítica e ética.

Português:

  • Filosofia na Escola

    • Este site brasileiro oferece materiais e ideias para incorporar a filosofia na educação básica. Contém atividades e estratégias para envolver as crianças no pensamento filosófico.
    • Filosofia na Escola
  • Portal do Professor - Filosofia para Crianças
  • Inglês:

    Philosophy for Kids
    • Este site oferece recursos e atividades projetados especificamente para introduzir conceitos filosóficos para crianças de uma forma divertida e interativa.
    • Philosophy for Kids
    P4C - Philosophy for Children
    • P4C é uma organização internacional que se dedica a promover a filosofia para crianças. Seu site oferece recursos e informações valiosas sobre essa abordagem educacional.
    • P4C - Philosophy for Children

    Espanhol:

    Filosofía para Niños
    • Este site oferece uma introdução à filosofia para crianças, incluindo materiais educacionais e informações sobre como implementar a filosofia na educação infantil.
    • Filosofía para Niños
    Aprender a Pensar - Filosofía para Niños
    • Aprender a Pensar é uma organização que promove a filosofia para crianças em vários países de língua espanhola. Seu site oferece recursos e informações sobre a implementação dessa abordagem na educação infantil.
    • Aprender a Pensar - Filosofía para Niños

    quinta-feira, 28 de setembro de 2023

    Sala de Aula Invertida: Transformando o Ensino Tradicional


    Sala de Aula Invertida

    https://pixabay.com/

    A Sala de Aula Invertida é uma metodologia ativa que vem ganhando espaço no campo educacional, representando uma abordagem inovadora para o processo de ensino-aprendizagem. Neste artigo, exploraremos essa metodologia, abordando sua definição, seus requisitos para implementação e os desafios que apresenta aos professores. Além disso, discutiremos como a Sala de Aula Invertida pode ser uma oportunidade de transformação no ensino tradicional.


    O Conceito da Sala de Aula Invertida

    A Sala de Aula Invertida redefine o tradicional modelo de ensino, alterando tanto o tempo quanto o espaço das atividades de aprendizagem. Nessa abordagem, o primeiro contato com novos conceitos ocorre individualmente, fora da sala de aula, por meio de material estruturado, como vídeos. O tempo em sala de aula é então dedicado à aplicação, síntese e criatividade, com a orientação ativa do professor.



    Requisitos Essenciais



    Para implementar a Sala de Aula Invertida, é fundamental que o docente crie material claro, desafiador e de qualidade, que possibilite aos alunos uma compreensão aprofundada do conteúdo. Além disso, a capacidade de utilizar eficazmente as tecnologias disponíveis e a criação de variedade instrumental de avaliação são requisitos essenciais para o sucesso dessa abordagem.


    Desafios para os Docentes

    A implementação da Sala de Aula Invertida traz consigo desafios significativos para os professores. Além da necessidade de sensibilização para perceber o potencial transformador dessa metodologia, os docentes devem adquirir habilidades técnicas para criar e curar materiais de ensino, como vídeos, podcasts e infográficos, além de desenvolver instrumentos de avaliação adaptados a essa nova abordagem.

    Considerações Finais

    A Sala de Aula Invertida oferece uma oportunidade valiosa de transformação no ensino, possibilitando uma maior interação entre professores e alunos, promovendo a compreensão aprofundada dos conceitos e estimulando a criatividade. No entanto, essa transformação demanda esforço, aprendizado contínuo e a compreensão da importância da capacitação técnica e da sensibilização para o potencial transformador da metodologia.

    Este artigo explorou a Sala de Aula Invertida, uma metodologia que desafia os métodos tradicionais de ensino, incentivando uma aprendizagem mais ativa e participativa. Ao considerar os requisitos e desafios, os educadores podem efetivamente implementar essa abordagem inovadora, promovendo uma educação mais envolvente e eficaz para os alunos.


    Referências Bibliográficas

    Bergmann, J., & Sams, A. (2019). Sala de aula invertida: Uma metodologia ativa de aprendizagem (1o ed). LTC.

    Buesa, N. Y. (2023). A sala de aula invertida ou flipped classroom ([e-book]). Must University.

    Campos, R., & Junior, C. F. D. A. (2020, dezembro 16). O tutor youtuber e o uso da sala de aula invertida na promoção da autonomia dos estudantes na modalidade EAD. Apresentações Trabalhos Científicos. 26o CIAED Congresso Internacional ABED de Educação a Distância. https://doi.org/10.17143/ciaed.XXVICIAED.2020.52928

    Mattar, J. (2017). Metodologias ativas para educação presencial, blended e a distância (1o ed). Artesanato Educacional.

    Rimkus, C. M. F. (2020, dezembro 17). Sala de aula invertida: Relato de uma experiência. Apresentações Trabalhos Científicos. 26o CIAED Congresso Internacional ABED de Educação a Distância. https://doi.org/10.17143/ciaed.XXVICIAED.2020.52295

    Talbert, R. (2019). Guia para utilização da aprendizagem invertida no ensino superior (1o ed). Penso.


    quarta-feira, 12 de julho de 2023

    O Papel da Inteligência Artificial na Educação: Uma Análise Histórica e Perspectivas Futuras



    IA - Uma ponte social?

    A Inteligência Artificial (IA) é um campo multidisciplinar que tem despertado grande interesse e vem sendo amplamente discutido nas áreas acadêmicas e tecnológicas. Neste artigo, iremos explorar a conexão entre a IA e a educação, destacando sua relevância social e as possibilidades que essa integração traz para as discussões contemporâneas.

    Um Breve Histórico da IA

    A história da IA remonta às tentativas de reproduzir artificialmente as redes neurais humanas. Esse campo de pesquisa ganhou impulso na década de 1950, com a conferência de Dartmouth, marcada pela apresentação do primeiro programa de IA. A abordagem cognitivista, que busca replicar as operações associativas entre símbolos na mente humana, foi adotada como o paradigma mais próximo da inteligência humana. Embora os avanços na IA sejam significativos, é importante considerar as limitações técnicas e filosóficas que ainda precisam ser superadas para alcançar uma inteligência comparável à humana.

    A Inteligência Artificial na Educação

    Os AVAs podem incorporar recursos de gamificação e interfaces interativas, identificando áreas de maior interesse e propondo caminhos mais produtivos para o aprendizado. O planejamento cuidadoso do processo de ensino e o desenvolvimento de recursos adequados são fundamentais para a efetividade da IA na educação. Também tem encontrado aplicações diretas na área da educação, especialmente no contexto da Educação a Distância (EAD). Com o uso de sistemas inteligentes e ferramentas como Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA), a IA contribui para a personalização do ensino e a oferta de atividades de reforço com base na análise de padrões de comportamento dos estudantes.

    Perspectivas

    Embora haja desafios a serem enfrentados, a IA oferece perspectivas empolgantes para o futuro da educação. À medida que exploramos e aproveitamos o potencial da IA, devemos considerar cuidadosamente sua integração, buscando sempre garantir uma abordagem equilibrada que beneficie a todos os envolvidos no processo educacional. Além das aplicações atuais, existem perspectivas promissoras para a IA na educação. A integração de tecnologias como o Processamento de Linguagem Natural (PLN), a afetividade e as interfaces 3D pode proporcionar uma quebra de paradigma nos ambientes virtuais de aprendizagem. No entanto, essa transformação ainda é um desafio a ser superado.

    O Que Temos Agora?


    Recentemente, a empresa OpenAI lançou o Chat-GPT, um aplicativo de IA de fácil acesso e uso. Esse avanço tem gerado discussões acaloradas nas redes sociais e mostra o potencial da IA para interações conversacionais diretas. Um exemplo bem-sucedido de integração da IA na educação é a plataforma Duolingo, que utiliza a IA para aprimorar o ensino de idiomas. A plataforma combina o trabalho de especialistas em aprendizagem com recursos de IA para criar cursos interativos e personalizados. Embora seja uma empresa lucrativa, o Duolingo oferece acesso gratuito a milhões de estudantes.
    Pois bem, a IA continua sendo um tema instigante, especialmente quando se trata de sua aplicação na educação como um todo. Contudo, é na integração da IA na EAD tem o potencial de melhorar a qualidade e efetividade do ensino, proporcionando oportunidades de aprendizagem de qualidade para um número maior de pessoas.

    Referências Bibliográficas


    Bozena Pajak, & Bicknell, K. (2022, setembro 30). No Duolingo, humanos e inteligência artificial trabalham juntos para desenvolver um aprendizado de alta qualidade. Duolingo Blog. https://blog.duolingo.com/pt/como-os-especialistas-do-duolingo-trabalham-com-inteligencia-artificial/

    Costa, M. J. M., Filho, J. C. F., & Júnior, J. B. B. (2019). Inteligência Artificial, blended learning, e educação a distância: Contribuições da IA na aprendizagem on-line a distância. TICs & EaD em Foco, 5(1), Art. 1. https://www.uemanet.uema.br/revista/index.php/ticseadfoco/article/view/428

    Crevier, D. (1993). The tumultuous history of the search for artificial intelligence. BasicBooks.

    López, M. C. (2013). Inteligencia artificial [Http://purl.org/dc/dcmitype/Text, Universidad Complutense de Madrid]. Em Inteligencia artificial: Condiciones de posibilidad técnicas y sociales para la creación de máquinas pensantes. https://portalcientifico.uned.es/documentos/5d1df61b29995204f76617a7{\i{}OpenAI}. ([s.d.]). Recuperado 7 de mar\uc0\u231{}o de 2023, de https://openai.com/  

    Quaresma, A. Q. (2018). Inteligências artificiais e os limites da computação. PAAKAT: revista de tecnología y sociedad, 15, 69–84.

    Redação. (2022, agosto 26). Criador do Duolingo revela como construiu um império bilionário. Pequenas Empresas Grandes Negócios. https://revistapegn.globo.com/Empreendedorismo/noticia/2022/03/criador-do-duolingo-revela-como-construiu-um-imperio-bilionario.html

    Santana, W. (2023, março 7). OpenAI: Como funciona a empresa criada por Musk e que lançou o ChatGPT. InfoMoney. https://www.infomoney.com.br/negocios/openai-como-funciona-a-empresa-criada-por-musk-e-que-lancou-o-chatgpt/

    Vicari, R. M. (2018, outubro 22). Inteligência Artificial aplicada à Educação – Informática na Educação. https://ieducacao.ceie-br.org/inteligenciaartificial/


    Sobre o Autor: Evaldo Sant Ana de Almeida é graduado em Pedagogia e Filosofia, com mestrado em Tecnologias Educacionais Emergentes. Especialista em Planejamento Educacional e Neuropsicopedagogia, atua como técnico educacional na Universidade Federal de Rondônia. Entusiasta do software livre e das abordagens alternativas na educação.
    Evaldo Sant Ana de Almeida

    quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

    Tecnologias emergentes no ensino: o que é e o que esperar disso?

     



    As novas tecnologias da informação e comunicação apresentaram-se ao mundo desafiando limites, até então, impostos pela natureza. Todo artefato fruto do conhecimento que expande ou estende as capacidades naturais do homem nós chamamos ordinariamente de tecnologia. Todavia, os meios que lidam com a informação e a comunicação possuem a capacidade de ampliar a disseminação do próprio conhecimento de forma intencional e não acidental. Claro que podem ser utilizados de forma destrutiva, inclusive, mas estão presentes, são uma realidade que não se pode ignorar e da qual não se pode fugir.



    O que é ensinar?

    Sinais

    A etimologia não é uma chave mágica que abre as portas do conhecimento, mas acredite, pode ser uma ferramenta útil na descoberta da origem de algumas ideias ou como nós percebemos essas ideias. O tema proposto “Tecnologias emergentes no ensino”, de certa forma nos obriga a consultar os alfarrábios à procura de alguma pista sobre o que estamos falando. Observe que, caso você consulte um dicionário de filosofia ou um manual de psicologia da educação, ou ainda quem sabe um livro sobre as teorias da educação, verá que há muita informação preciosa a ser descoberta. Mas o que queremos nesse momento é fazer um exercício de busca por definições. Então, vamos lá!


    Quando falamos de ensino é interessante ter em mente que essa palavra deriva do latim insignare, literalmente, colocar uma marca em algum lugar. Ou seja, a origem latina dessa palavra brasileira nos traz a ideia de que ensinar é marcar, sinalizar. É verdade que essa ideia de marca pode nos fazer pensar em rótulo, marcar alguém como um carimbo. Mas de acordo com as mais recentes visões sobre o tema, é possível visualizar a ideia de indicar, sinalizar, apontar. Ou seja, é possível pensar no ensino como a indicação das marcas deixadas pela sociedade até aqui, sinalizando direções possíveis, mas normalmente pensando em progressão, passo à frente.


    Crescimento tutorado



    Pois bem, não dá para falar sobre a ideia de ensino sem abordar o seu resultado esperado, a aprendizagem. Então, de onde nos teria vindo a palavra aprender? O que sabemos sobre sua origem? Uma verificação rápida em um dicionário etimológico ou de latim nos informa que esse termo tem origem nas palavras latinas prae, à frente e hedera, que nos remete à palavra hera, planta trepadeira. Assim, a planta trepadeira se prende, gruda, se agarra às superfícies e seus ramos seguem na direção natural de todas as plantas, ou seja, tendendo para cima. Novamente a ideia de progressão.


    Andando em círculo?


    Claro que não! Ensinar e aprender, mesmo na acepção mais rasa baseada na origem dessas palavras, deve nos afastar da ideia de indicar o que se deve fazer como modelo estático. Fosse assim não haveria progressão. A ideia de sinalizar parece combinar com a noção de um caminho, do grego hodos, de onde também temos a palavra metodologia ou meta hodos, ou seja, atrás do caminho. Ou melhor ainda, indica o caminho a seguir, uma direção, mas não seu ponto final. É verdade que há repetições, há retomadas. De modo que é como se andássemos em um movimento circular, mas progressivo. Trazendo à mente a imagem de uma escada em espiral. Assim, o ensino não trata de formatar algo pronto e acabado. Da mesma forma que aprender, embora possa falar sobre um “produto”, parece dizer mais sobre um jeito de fazer ou descobrir. 

    Ah, sim, para os gregos a tekhne se referia às artes, às obras de um artesão. Diferente do conhecimento teórico, a técnica se referia à aplicação e habilidade de realizar um trabalho. 



    Como essas coisas se encaixam?


    Bem, hoje quando falamos de tecnologia, parece muito normal trazermos à mente a imagem de algum dispositivo computacional eletrônico, seja um computador desktop, laptop ou um smartphone. Essas coisas não são a tecnologia em si, mas o poder que os computadores possuem de processar dados, manipular múltiplas formas de meios, ou seja, ser multimídia, criar grupos de interação à distância através da capacidade de atuar em redes, tudo isso nos leva a olhar essas máquinas como elementos representativos da tecnologia moderna.


    Esses equipamentos que vão surgindo, emergindo como resultado do progresso ou avanço do conhecimento humano e sua aplicação, passaram a servir a todos os propósitos. Ora, uma tecnologia nos leva a pensar na expansão ou extensão das capacidades humanas. Seja na força física das máquinas, seja na capacidade de ver o invisível com telescópios ou microscópios, ou ainda enxergar por meio de ondas infravermelhas e uma infinidade de atributos humanos que são elevados à enésima potência. Assim, essas tecnologias, mesmo tendo sido criadas para outros fins, acabam se voltando para o propósito social de formar novas gerações de humanos capazes de fazê-los, melhorá-los, superá-los.


    O que, de fato, está emergindo na área das tecnologias?

    É difícil e talvez impossível fazer um inventário de todas as tecnologias que estão surgindo neste momento no mundo todo. Há empresas trabalhando em novos produtos, há grupos públicos envolvidos no desenvolvimento de inúmeros novos itens tecnológicos. Algo, entretanto, que deve ser lembrado é que uma tecnologia educacional não é necessariamente um produto novo, ou uma tecnologia totalmente nova e inédita. As tecnologias educacionais são muito mais novas aplicações com propósito de promover o ensino e a aprendizagem do que produtos novos. 


    Se as tecnologias emergentes são novas aplicações intencionais para a educação, poderíamos pensar no rádio como exemplo. Esse instrumento possibilitou a transmissão da voz humana, decomposta em ondas eletromagnéticas e depois restaurada mecanicamente, a grandes distâncias. Em algum momento alguém percebeu o potencial desse equipamento na transmissão de informações e produção de conhecimento. A escrita, a imprensa, o telégrafo, o rádio, a televisão, todos eles foram avanços técnicos utilizados também na educação. O computador transcendeu esses equipamentos quando possibilitou reunir, de forma otimizada, as capacidades de todos eles. Ou seja, a capacidade de armazenar informações, transmitir a voz e imagens à distância, possibilitar a interação em tempo real com grande número de pessoas a distâncias não imaginadas na antiguidade. Essa capacidade abriu possibilidades ainda não totalmente exploradas a serviço da educação.


    Os avanços da neurociência

    As teorias sobre como o ser humano aprende, por conseguinte, qual a melhor maneira de ensinar foi impactada com as descobertas da neurociência. Novas tecnologias possibilitaram visualizar, até certo ponto, o cérebro em ação. De modo que atualmente não é possível falar em aprendizagem ou filosofia da mente sem tocar em temas abrangidos por essa área do conhecimento, muito relacionada às novas tecnologias na área da saúde.


    Multimídia

    Os estilos de aprendizagem, em que pese as discussões a respeito, podem ser contemplados de forma inédita com o uso dos computadores e sua capacidade de trabalhar com meios diversificados de apresentação de conteúdo, seja por áudio, imagem, simulação, atalhos para outros caminhos, e interação através das redes.


    Relação de amor e ódio

    É verdade que essas tecnologias emergentes são capazes de despertar sentimentos diametralmente opostos. Fala-se dos tecnófilos, ou amantes da tecnologia e dos tecnófobos ou aqueles que temem ou odeiam, mas quem são eles?  Bem, há pessoas que veem as novas tecnologias como a solução de todos os problemas, enquanto outros as veem como ameaça e meio de desumanização da humanidade.


    Aqueles que veem as tecnologias como a “salvação da lavoura” parecem se esquecer de que no século dezenove houve uma grande expectativa de que o mundo seria melhor face o avanço do conhecimento científico, as grandes invenções e descobertas, mas no início do século XX essas tecnologias foram usadas nas duas Guerras Mundiais, dizimando parte da humanidade. Do outro lado estão aqueles que, temendo os males possíveis por meio das tecnologias, se esquecem, por exemplo, da erradicação de doenças por meio de tratamentos e vacinas, pela própria possibilidade de expressar opinião e tê-la divulgada pelo mundo, por meio desses artefatos. Seja como for, essa polarização existe, assim como existe o equilíbrio.


    Equilibrando as coisas


    Aparentemente, nem o amor nem o ódio são o melhor caminho para se lidar com as tecnologias. Se pensarmos na tecnologia como instrumento, então poderemos ter uma postura mais saudável e equilibrada. Ora, esses artefatos, produtos do conhecimento humano, não são nem bons nem maus em si mesmos. É claro que há instrumentos criados com propósitos de dominação, de controle, de destruição, embora seu uso em benefício da vida humana seja possível. Por outro lado, mesmo que uma intenção seja salutar na criação, isso não significa que sua utilização por todas as pessoas será para o bem. Daí torna-se necessário desenvolver uma visão crítica, julgadora, que analise profundamente essas criações e a própria tecnologia como um todo. Afinal, são as intenções que podem ser boas ou más, as tecnologias são apenas instrumentos. Diante disso é importante ponderar sobre as seguintes questões: Como você se relaciona com esses produtos tecnológicos? Você já utilizou ou está utilizando algum equipamento desses intencionalmente para aquisição ou construção do conhecimento? Sente-se responsável pela forma que utiliza esses artefatos? Sua resposta pode ser um indício da resposta ao título do texto.

    * As imagens utilizadas estão sob a pixabay license

    Referências Bibliográficas

    Aldo Ferreres, & Abusamra, V. (2016). Neurociencia y educación (1º ed). Buenos Aires: Paidós.

    Cardoso, Carlos. 2001. “Os desafios da diversidade e das novas tecnologias”. Recuperado 29 de novembro de 2021 (https://www.apagina.pt/?aba=7&mid=2&cat=107&doc=8565).

    Cosenza, R. N., & Guerra, L. B. ([s.d.]). Neurociência e educação.

    Demo, P. (2001). Conhecimento e aprendizagem na nova mídia. Brasília: Editora Plano.

    Ferreira, António G.. 1966. Dicionário de latim-português. Porto Editora.

    Fronza, Katia R. K.. 2015. “Nem tecnofilia, nem tecnofobia: existe um ponto de equilíbrio?” 4. Recuperado 10 de janeiro de 2022  (http://www.necso.ufrj.br/vi_esocite_br-tecsoc/aglomerados/1442021567_ARQUIVO_KatiaFronzaNemtecnofilianemtecnofobia.pdf)

    Libâneo, J. C. (2004). Adeus professor, adeus professora?: Novas exigências educacionais e profissão docente (8º ed). São Paulo: Cortez.

    Nascentes, Antenor. 1955. Dicionário etimológico da língua portuguêsa. Rio de Janeiro.

    Urbina, J. M. P. de. (2012). Diccionario manual griego clásico-español (25º ed). Espanha: Vox.


    Sobre o Autor: Evaldo Sant Ana de Almeida é graduado em Pedagogia e Filosofia, com mestrado em Tecnologias Educacionais Emergentes. Especialista em Planejamento Educacional e Neuropsicopedagogia, atua como técnico educacional na Universidade Federal de Rondônia. Entusiasta do software livre e das abordagens alternativas na educação.


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